sábado, dezembro 13, 2008

7.10 - Dom

[ Dom ]



A minha menina é assim, bem assim.
De Capitu não tem os olhos, sobra-lhe o mar.
Se essa assim é minha sina, que me assina a sentença
minha - ser, estar, permanecer - menina
Finge que é uma outra qualquer, faz ares, imitação

Por que é que você some e volta contando historias?
me consome no que diz, verbo e pronome
Por que é que você não fica de uma vez por todas na minha vida?
mas precisa, bem assim, sair e voltar
pra me fazer pensar o que seria de mim se fosse pra sempre

Tinha que ser assim, bem assim, diferente
assassina meus devaneios com pés bem no chão
me irrita e me encanta, por não saber me entender
e me faz ver que eu é que nada de mim sei
O que é que você quer?
quando joga,
quando afoga,
quando nega,
quando interroga

por que ela tem o nome
e tenta. e consegue. e sabe o que fazer.
ela, assim, sim, descobre o ponto fraco
responde com interrogações e fecha os olhos
não lhe vêm as lágrimas, bem assim
diz, simula. e provoca. e causa.

e a vida pra ela é assim, bem simples
sintomas de verão, quase que roupas
e cabelos, olhos, belos
bocas, perfumes e frases pela estrada
mais reticências do que vírgulas
espaços abertos, letra acinzentada

A minha menina é assim, bem assim.
o meu defeito, é querer e ainda mais
quando o tempo, a janela e o quilômetro falam
o defeito dela, que me tira a paz
é que minha, desse jeito assim, me embalam
não de nada, apenas de si, nunca de mim

Dica de Locadora: Dom - o filme brasileiro traz Maria Fernanda Cândido vivendo "Capitu" antes da microssérie global. Premiada, interpretou o pivô de um triângulo amoroso inspirado em Dom Casmurro, passado na atualidade, entremeado entre coincidências. Seu Bento era o Dom. Mas o dom sempre foi dela.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

7.09 - Nuovo Cinema Paradiso

[ Nuovo Cinema Paradiso ]


Porque minha história com o cinema começou já torta. Não que eu considere, assim como milhares de outros podem chegar a dizer, menos nobre a escola de onde eu vim. Mas é que, naquela época, em que o videocassete era a lei, e as milhares de fitas de vídeo do meu pai enfeitavam as prateleiras do quarto, o cinema pra mim era Hollywood. Toda a minha formação original nessa área veio dos clássicos, veio da assinatura da revista Set que meu pai fazia. Eu gostava de ler e reler mil vezes os volumes daquela pilha gigantesca de astros e estrelas sobre a calçada da fama. Fazia filmes com atores reais da minha própria cabeça. Kubrickando sem querer...

Foi em Hollywood que aprendi a mexer mentalmente numa câmera, procurando com os movimentos e closes, o melhor ângulo. A estética, nessas horas, é o principal. O brilho, as luzes ofuscantes daquele universo paralelo, tão longínquo quanto qualquer sonho, para um garoto de 8 anos. Porque minha história com o cinema não começou de um jeito marcante, não houve aquele filme que me fez querer olhar para o alto e descobrir que, um dia, era aquilo que eu ia estudar na faculdade, aquilo o que eu ia querer fazer, na prática, do meu ganha-pão. De cidade pequena, me restava uma locadora limitada, da qual vi todos os filmes que me eram possíveis pela minha faixa etária. Colecionei pôsteres e acompanhei uma galera radical aprontando as maiores confusões na Sessão da Tarde. E vou negar que isso fez parte da minha formação cinematográfica? De Macaulay Culkin a Tatum O'Neill... Fui, pela primeira, vez ao cinema assistir Pânico 2. Semanas depois, Titanic. E não me arrependo. Teria sido melhor começar com Ladrões de bicicleta? Ou, de uma maneira menos ambiciosa, Felicidade não se compra?

Conheci Grace Kelly na capa de uma revista, Orson Welles nas páginas de outra, ao lado de Demi Moore, Tom Hanks, Alicia Silverstone. Porque é assim que tem que ser. Comerical? Se chegassem a pensar que é assim que eu vendo meu intelecto, assim que desperdiço os meus dias, assistindo reproduções de clichês, meras produções que devem sua existência a um outro cinema, este mais rico, denso, eu diria que é bem assim que deve ser. Foram as luzes de Hollywood que me fizeram despertar. Não apenas uma, mas várias comédias românticas com Meg Ryan que me chamaram atenção para um jeito diferente de produzir a realidade.

Porque foi tarde demais que eu conheci Antonioni. Bergman, Fellini, Visconti, de Sica, Ozu eram apenas nomes. Hoje reconheço o brilhantismo das obras modernas, que transpõem as barreiras do clichê norte-americano. Mas não por isso devo abandonar a terra que me acolheu, em sonhos. Não por isso fecho os olhos ao que Hollywood me proporciona, a cada premiére. Porque o cinema é um só. E (me) é possível amar tanto Monica Vitti quanto Reese Witherspoon. Porque Katherine Hepburn representada por Cate Blanchett no blockbuster sobre um sonhador, como eu, é a síntese do que o cinema significa pra mim.

Tantas são as dimensões que o cinema possui, que resumi-lo a fez Godard é tão injusto quanto acreditar que Spielberg seja o maior diretor de todos os tempos. Um nos dá o desprezo, o outro, dinossauros... Porque sonhos, e a vida, no geral, é feita do que está por dentro e do que está por fora. Não é desse cinema exterior que ganha sentidos interiores que viveu Hitchcock?

Minha história com o cinema é torta, mas não por culpa das comédias e filmes adolescentes que vez ou outra me ocupo de ver - e que me causam tanto fascínio quanto preto-e-brancos. É torta por eu ter acreditado, por anos, que era errado adorar Hollywood. De lá vieram tantas pérolas quanto aquelas das ostras neo-realistas, surrealistas, formalistas, fascistas ou comunistas. É dessa comunhão, do homem com a câmera que nos faz unir Sergio Leone e Guillermo del Toro num mesmo patamar. Porque a genialidade é multifacetada. E quem quer que desconheça, ou ignore, ou mesmo negue essa realidade, não entende o cinema. E terá sido em vão cada segundo dividido em 24. Terão sido vãs as percepções diegéticas de Eisenstein, que se descobre tarde, após anos de John Hughes. Tornatore me ensinou mais do que amar o cinema, no sentido físico da palavra, mas também me ensinou a amar Monica Bellucci.

Graças a Hollywood, cresci com Tom Hanks, toquei teclado na loja de brinquedos, corri contra o tempo com Sandra Bullock, viajei ao passado com Michael J. Fox, matei aula com Matthew Broderick, enfrentei duendes malignos com Jennifer Connelly, cresci cedo demais com Robin Williams... E também desvendei fórmulas matemáticas com Matt Damon, psicanalisei uma fila de cinema com Woody Allen, enumerei meus dramas amorosos com John Cusack, encarei lutas com Brad Pitt, me apaixonei por Mrs. Robinson com Dustin Hoffman, tive crises de criatividade com Nicolas Cage, fiz brigadeiro com Liv Tyler, torci parra que a assassina fosse interrogada de novo com Sharon Stone, me casei com Julia Roberts. Respirei Tarantino, ri com Diablo Cody, me fascinei com o mundo de Coppola, mordi o pescoço de Kirsten Dunst, cresci com Christina Ricci, morri na tragédia com Leonardo di Caprio e Claire Danes.

Continuo a minha dieta. De macarronis a Morricones. Continuo devorando com o mesmo gosto Fritz Lang e Christopher Nolan. Continuo cinéfilo e cinófilo - e darei ao meu cachorro o nome de Godard. Não há maneira vil de se fazer cinema. Todo close, todo plano, toda cena é nobre. Em cada Bette Davis há boas intenções, em cada Reese Witherspoon há arte. Há beleza no que faz o cineasta independente, com apenas algumas idéias leves e joviais na cabeça. Há razão tanto em Cary Grant quanto em Keany Reeves. Não há como negar que, entre fotografias, trilhas, espaços, lugares, sentidos, não exista cinema. Porque não há cinema ruim. Há apenas filmes ruins.

E, aos meus filhos, Capras, Disneys, Lucas e Spielbergs. Para que a infância de todos tenha tantos sonhos quanto foram os meus.

Dica de locadora: Nuovo Cinema Paradiso (Cinema Paradiso).
Trilha sonora: Por que você faz cinema? (Adriana Calcanhotto)
Citação: y tu mamá también.

sábado, novembro 22, 2008

7.08 - Le Mépris

[ Le mépris ]

antes de qualquer coisa: esse post não é sobre situações específicas, vivenciadas ou meio-reais. É ficção baseada em observação da vida ALHEIA. Qualquer coincidência é mera semelhança. Mesmo.


"
Você sabe o que é o desprezo?"*. Foi o que perguntou João Luciano Ferreira Júnior, ex-aluno da Faculdade de Letras da UFMG à amiga e amada professora Polyana Arantes, antes de atirar contra a própria cabeça três meses atrás. Eu, por exemplo, não conheço esse desprezo aí de se matar ou de se morrer. Mas confesso que já senti na vida um pouquinho do que poderia vir a se tornar uma coisa bem parecida. E desprezo é coisa que não é boa de sentir, nem para o desprezante e nem para o desprezado. Desprezo é o sentimento contrário à afeição, que vai além da indiferença e fere mais do que a ira (momentânea que é). Ele pode vir de qualquer lugar e ir para qualquer outro, por qualquer motivo. E é perigoso quando se aproxima. "Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te não incomode. Não te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre está nisso", já dizia Fernando Pessoa. Da implicância até o desprezo há um longo caminho, que passa pela raiva, não necessariamente.

Coisas bem diferentes são a obsessão, a teimosia e a dificuldade de superação. Transpor esses obstáculos viciosos é pra poucos... Dons preciosos, que nem mesmo um terço das pessoas, para citar a famosa proporção, possuem. Normal, simples assim, cada um lida como pode, como sabe, como quer. Tão subjetivo quanto o próprio olhar. Auto-destruição e sofrimento por opção é coisa de gente imatura. GEnte que persiste, apesar de todas as mãos que tentam puxá-los pra cima, em ficar lá no fundo do poço, conservando uma alegria ilusória em forma de escudo. Não que não sejam felizes ou sinceras as alegrias e momentos dessas pessoas. Mas há algo de vil nesse olhar. Há algo de extremamente cruel e desumano em disparar tiros de negatividade.

As pessoas são bem assim... umas superam, outras não. As que não conseguem, bom... dessas já não sei. Às que o fazem, basta ter paciência e esperar até que o outro também possa. Mas algumas vezes, a paciência é tão limitada quanto o círculo vicioso das convicções de quem não pode superar. Falta de paciência leva à implicância. A apenas algumas milhas do desprezo. Desse daí, não tem volta.

Le mépris (O desprezo) - Aclamado pela crítica e considerado um ds melhores filmes de Godard e da Nouvelle Vague, com Brigitte Bardot. Michel Piccoli é Paul Javal, um roteirista que vai para Roma trabalhar numa adaptação de A Odisséia, de Homero, que o diretor Fritz Lang está rodando na cidade. Paul é casado com a bela Camille (Bardot) e se arde de ciúmes quando ela aceita uma carona do produtor do filme, Jeremy Prokosch (Palance). Camille despreza Paul. E eles nem terão tempo de superar...

*A fala foi retirada de um site onde se lê uma matéria sobre o caso, levando em conta os laudos do inquérito.



quarta-feira, novembro 12, 2008

7.07 - Running with scissors

[ Running with scissors ]


Ontem eu senti assim uma tristeza mesmo, sabe? Não daquelas tristezas concretas por causa de uma coisa específica, nada disso. É daquelas angústias que vêm sem avisar antes. O pior foi descobrir que talvez fosse só uma conclusão. Quando tristeza é conclusão, é porque a coisa tá feia. E lá, no supermercado, mil sacolas na mão, cesta pesada, esqueci o que estava procurando entre as pratelerias. Fazer compras tem sido um hábito solitário, talvez o mais solitário que realizei nos últimos anos. Eu simplesmente não consigo encontrar o que eu estava procurando, mas não por ser indeciso e sim pelo perfeito oposto: eu sei exatamente o que quero, sempre. Só que essa coisa nem sempre existe. Daí eu insisto em ficar insatisfeito procurando em lugares que eu sei que não vou encontrar.
E hoje, a agonia voltou. Enquanto apresentavam o trabalho lá na frente da sala, uma insuficiência tomou conta. Sempre detestei minha própria mediocridade, mas agora cansei dela. Cansei de simplesmente não ter o mesmo fascínio pelas coisas belas do que gente que eu conheço. Não consigo fazer por merecer, não consigo ser brilhante no que eu quero ser, só esporadicamente naquilo que me vem naturalmente. Em vez de ler o texto, eu sempre prefiro dormir. Por que é que eu não consigo?
Postergar tem sido minha palavra de ordem. Deixar sempr para a última hora, que nem sempre é suficiente. E então me deito sobre a mediocridade. E nem adianta nivelar por baixo. Sei, tem gente pior do que eu. Sei, tem gente melhor. E daí? Eu meio que ligo muito pouco para o mundo, tem sido assim ultimamente. O mundo é bobo, hipócrita, só umas 4 pessoas que eu conheço possuem opiniões que valem a pena ser ouvida. No máximo. Cansei de opiniões. Gente defendendo teses, que coisa mais estúpida. Odeio gente boa de serviço.
Eu descobri que o que eu mais odeio na vida é fila. E preencher formulários. E calor. Aff, calça jeans no calor. Mas ainda pior é opinião alheia. Me perguntaram outro dia por que é que eu to com tanta preguiça do mundo. Eu digo e repito: a culpa é do mundo mesmo. Não tem nada de errado comigo. Quer dizer, tem sim.
Dentro do provador da loja de roupas eu vi, pelo espelho, que minha cabeça tem um formato estranho. POr que será? Tipo, impossível simplesmente trocar de cabeça. Impossível até fazer plástica. Não que eu queira, mas é mesmo estranha. Uma coisa não parece combinar com a outra. E nada faz sentido em conjunto. Eu só consigo fazer sentido olhando de dentro, daqui mesmo de onde eu olho. Por isso que eu queria ser um eremita. Eu queria me bastar. Ou então que as pessoas fossem cegas.

E as risadas esparsas do dia a dia são só pra não viver em dor.
Queria é fazer um filme. Acho que vou começar um roteiro. OU então ler O apanhador no campo de centeio de novo.




cansado de padrões.

segunda-feira, outubro 06, 2008

7.06 - American Pie

[ American Pie ]

Era um domingo à tarde. Não que eu estivesse despreparado. Já sabia há semanas que aquilo iria acontecer naquele dia. Treinei várias vezes, repeti as palavras até decorá-las e depois outras tantas vezes para que elas parecessem naturais. Sabia de cor cada movimento que deveria fazer com o corpo. Numa eternidade que durou desde o momento em que eu saí de casa num sol escalda
nte para as ruas da BH aos 35°C, passando pelas longas horas de espera numa praça, até eu entrar lá, segundos se passaram. E lá estava eu com meu instrumento na mão. Era familiar, mas ao mesmo tempo era como se nunca o tivesse segurado antes. Bem na frente dela, que me olhava nos olhos, aguardando e contando os segundos para se abrir para mim. Se dez segundos antes eu sabia exatamente o que fazer, se aquele momento já havia habitado meus sonhos, se aquilo era apenas o meu destino, naquele momento, diante dela, eu era uma criança. Claro, não deve ser fácil chegar até o fim sem cometer um errinho sequer quando há mais cinquenta pessoas no mesmo ambiente. Eu sabia que a minha performance pouco importava à maioria delas. Cada um estava preocupado com o próprio desempenho. Mas para mim, eram cem olhos, duzentos, trezentos, embora eu só olhasse para ela.

Em algum lugar dentro de mim onde deveria estar o meu estômago criou-se um buraco negro, daqueles tipo big-bang mesmo. Eu não tinha mais o mínimo controle sobre os meus movimentos, minhas pernas insistiam em acreditar que estava frio a ponto de tremerem. Mas estava quente. Tudo muito quente. Tinha que tomar muito cuidado, firmar para que ela não me visse tremer.


E foi assim, depois do cinco, quatro, três, dois, um, que eu comecei.
"14226 urnas foram distribuídas por toda a cidade..."

E foi assim que foi a minha primeira entrada ao vivo na TV. Não em rede nacional, ainda. Mas pra mim, significou muito. Melhorou na segunda vez, um errinho na terceira, texto fácil na quarta, entrevistado, tudo certo na quinta, melhor ainda na sexta... "Otavio Oliveira, Eleições 2008".

Dica de locadora: American Pie, a primeira vez é inesquecível. Tá, todo mundo conhece esse filme, não preciso apresentar. Mas cabe aqui dizer que o primeiro filme da série é uma grande retomada das comédias picantes adolescentes dos anos 80. Não digo que esse seja o único filme bom da franquia, mas que é o melhor a certeza é absoluta. E sim, por trás das piadinhas de triplo sentido e do sentimentalismo (sim, existem camadas...), existe alguma graça em ver as trapalhadas pré-sexuais dos adolescentes. Não fomos todos assim? E tem outro grande motivo para esse filme ser legal: Mena Suvari...
Trilha sonora: Nothing in this world, by Paris Hilton

quarta-feira, agosto 27, 2008

Interlúdio da Temporada

ou Os Irmãos Oscar

Poderia estar roubando, matando, estuprando, usando tóxico (com ênfase no x com som de ch), poderia estar fazendo discurso dentro do ônibus implorando pra comprarem balas. Poderia fazer malabarismo ou vendendo sufflair no sinal (pois é, aqui em BH vendem Sufflair no sinal). Poderia exercer o meu autismo e não dizer nada, poderia deixar a Avril Lavigne dominar o mundo junto com o Google, poderia estar lendo o texto de 5 reais pra aula de 6ª feira.

Poderia estar me vangloriando por ter assistido a uma palestra foda de um cara que foi orientado pelo Phillipe du Bois enquanto eu estaria satisfeito com uma mera disciplina com ele (o cara, não o du Bois... se bem que... enfim). Eu poderia estar ansioso pelo meu primeiro salário com carteira assinada na vida, que chega na sexta-feira, e poderia fazer planos de como gastá-lo em 10 minutos, ou poderia chorar porque provavelmente os gastos do cartão de crédito já gastaram a metade dele.

Eu poderia escrever agora sobre um filme que eu acabei de ver pela 5ª vez e sobre como eu e o Jack Black temos bem mais a ver do que se pode imaginar. Ou então poderia dormir e me preparar para a jornada de trabalho de amanhã e a faxina da noite aqui em casa. Poderia escrever sobre como é um saco ser parte da comissão de formatura nas épocas de balanços e cálculos. Poderia até estar assistindo os mil filmes repetidos e os 10 não-repetidos que eu baixei e estão lá esperando na pasta "meus vídeos". Poderia estar pensando num jeito de arrumar a bagunça toda que eu fiz dentro da minha mente e dentro do meu coração quando eu achei que estava tudo indo bem.

Poderia mesmo estar pensando no roteiro do meu próximo filme. Ou até mesmo estar desistindo da vida de universitário e procurando caminhos melhores ou pelo menos mais rentáveis, tipo prostituição ou defenestração. Mas defenestração nem é mais rentável né...


Poderia aproveitar o fluxo e fazer propaganda do novo blog Blackmail que eu e a Lu estamos criando para uma disciplina da faculdade ou pensando no próximo tema sobre o qual vou escrever um conto para o Anos Incríveis. Ou então lendo o Rob mesmo.

Mas não, não to fazendo nada disso. To aqui só pra implorar que vocês assistam o filme dos Irmãos Oscar no youtube. Não custa nada. Dá uma clicadinha, uma esperadinha e uma assistidinha.

*esse texto é parte da campanha: vamos salvar o mundo da Avril Lavigne.

Duvido que você vai clicar aqui.

segunda-feira, agosto 18, 2008

7.05 - Inland Empire

[ Inland Empire ]



Poderia começar com a autopiedade mas diriam que sou velho demais pra problemas e inquietações tão adolescentes. O que é isso que me vem a essa hora da manhã? Hoje decidi vir para a aula ouvindo rádio em vez de mp3. Dar uma chance ao acaso, talvez. Acaso nada. Se toca música ruim eu sempre troco de estação. Isso quando todas as estações não resolvem passar propaganda ao mesmo tempo. Horário comercial, inclusive, é uma praga. Horário comercial em rádio então. Mas nada supera o horário eleitoral. Daí aparece um Renato Russo e eu imagino que minha vida poderia ser bem pior.
Não sou desses que acha que a felicidade é relativa. Você não está mais ou menos feliz só porque tem gente melhor ou pior. Se fosse assim não teríamos fome nunca.

Eu lembro das inquietações, dos sonhos que vieram com o filme perfutbador. Lynch diria, na cara mais boa do mundo, que o que vale é a experiência e não o sentido. Eu tive a oportunidade de vê-lo bem de perto. Homem estranho, ele. A gente vive numa busca incessante de sentido pra tudo e quando nos perguntamos por que, já sabemos o motivo. Por que é que a gente vive, afinal? Só pra ir contra os constrangimentos? O tempo todo a gente os evita. Às vezes não.

Então, Lynch, tu não é o fodão? Tu não é o homem da meditação? Me responde aí por que é que eu vivo nessa, sem dinheiro praticamente o mês todo, condicionado a esse rosto e a esse corpo? Não, não to reclamando. Passei dessa fase, lembra? Não to mais em idade de sonhar. Mas me diz aí qual é o grande negócio dessa experiência? Que vida é essa?

Eu gosto é de abertura de novela. De decorar as ordens dos créditos. De estudar rock and roll. De descobrir coisa que todo mundo sempre soube desde os anos 60. Sabia que depois que o Joe Cocker tocou With a little help from my friends no Woodstock na tarde do dia 16 de agosto de 69 começou um temporal que interrompeu o show por horas? Aposto que você, David Lynch, nem desconfia disso. Ou vai ver sabia. Você parece meio doido, tem cara de quem fumava umas e ouvia um rock psicodélico nos anos 60. Qual é o seu cd favorito dos Beatles? hem?

O meu é o Help!. É estranho ter um cd favorito dos Beatles.

Dica de locadora:
Inland Empire (Império dos Sonhos) - só assistindo mesmo.
Citação: Had it been another day..., "I've just seen a face" by The Beatles
Trilha Sonora: Erreway - Sera de Dios

quinta-feira, julho 24, 2008

7.04 - Short Cuts

[ Short Cuts ]


ou antropocomunicobloguismo.

Avenida Antonio Carlos.

Bem na minha frente um cartaz pregado: "Compre o cartão retornável BH BUs por apenas 6,30 em qualquer linha de ônibus". Estava eu de pé lá pelas 6 e pouco da noite num ônibus que cruza a cidade. Agora, semanas depois, nem lembro de como era o rosto dela, lembro que era baixinha, e feia, coitada, como ela mesma fez questão de acentuar. Ela entrou mais ou menos três pontos depois do meu. Eu, ouvindo música no fone de ouvido, quase não escutei quando ela decidiu falar algo.

- Que horas que já é?
- 6:40 - respondi sem tirar o fone do ouvido, querendo muito que aquela conversa terminasse ali.

Não terminou.

- Cartão BH Bus... olha que coisa boa... só 6,30, cê viu?

Não achei que fosse preciso responder.

- 6,30... quantas passagens que dá isso?

Para diminuir em alguns segundos a conta dela eu resolvi falar?

- Três.

O maior erro da minha noite. Ela simplesmente decidiu que eu estava definitivamente conversando com ela.

- Onde que compra será?

Voltei a olhar para o cartaz: "em qualquer linha de ônibus".

- Não sei.

Segundo maior erro da noite.

- Sabe sim! Nunca fala pras pessoas que você não sabe. Sempre que alguém te perguntar, você tem que falar que sabe, mesmo se não souber.
- Mas eu falei isso porque eu não sei.
- Ué. Pega ônibus todo dia e não sabe?
- Eu não pego ônibus todo dia não.
- Ah, é daqueles que tem carro, né.
- Não. Eu moro perto da faculdade, só to indo pra casa de um amigo.

Terceiro erro.

- Ah... - ela se resignou.
- Pergunta pro trocador - eu sugeri.
- Eu não! Esses trocador sem vergonha. Só fica falando da vida dos outros. Não gosto desse povo não...

Imaginei que a conversa tinha acabado. Tanto que até esse momento eu ainda estava com os dois fones de ouvido. No intervalo entre uma música e outra, que é quando o usuário do fone de ouvido tem algum contato com o som ambiente, ouvi um pedaço de frase.

- ... parece demais com ele.
- O que?
- Você é a cara dele, olha que coisa engraçada.
- hm...
- Ele tem esse olho de peixe igual ao seu.
- hm... (querendo muito que aquela conversa terminasse ali: velocidade 2)
- Ele e o irmão dele. Os dois ficam fazendo pouco caso ni mim. Mas um dia eles vão ver.
- hm...
- Ele só gosta de moça branca e loira, não gosta de morena baixinha igual eu não. Tá vendo aquela moça ali? É bem do tipo de mulher que ele gosta.
- hm...
- E pelo jeito cê também gostou né! To vendo pela sua cara que ocê gostou! Viu? Parece demais com ele.
- hm...
- Um dia ele vai ver. Vo vestir uma calça jeans nova e uma blusa de seda que a Maria me deu e ele vai ver só, vo judiar dele. Tanto que ele pode até mudar pra europa e ficar com as branquelas dele que vai lembrar de mim pra onde for.
- hm... (querendo muito que aquela conversa terminasse ali: velocidade 3)

Viaduto perto da rodoviária. Engarrafamento

- Pior que cê parece com ele demais, ele não é seu parente não?
- Como que é o nome dele?
- É Mauro. E o irmão dele é [algo parecido com brublleston. Nota do Editor]. Um dia ele vai ver. Ele é desse tipo de homem que a mulher tem que ficar sempre bonita, bem-cuidada. Se eu fosse mulher dele eu ia andar só com o cabelo arrumado, unha feita. Porque a verdade é essa, menino. Esses homem não quer saber de nada não, eles faz sacanagem mesmo com as mulheres, eles só querem o bem-bom, por isso que eu, eu sou mais eu, não tenho que ficar correndo atrás de homem não. Homem só faz a gente sofrer... Eu acho assim, menino, que mulher tem que se cuidar [próxima meia hora: frases mais ou menos iguais sobre como os homens são de marte e as mulheres são de vênus...] cê não acha, menino? Cê não acha que eu to certa?
- Acho.
- E mesmo se não achasse eu sei que eu to certa.
- hm... (querendo muito que aquela conversa terminasse ali: velocidade 4)

Rua Curitiba.

- Você que é jovem que é bom. Se eu fosse jovem eu ia namorar demais. Não to falando de ir pro motel nao, mas de ficar junto, de conversar... isso que é bom. Agora eu, com 34 anos, até que eu to bem também, menino.
- hm...
- Porque assim, cê tá indo pra casa do seu amigo, vocês que são jovens que tem que se divertir mesmo. Homem tem que ser assim mesmo. Ele vai te chamar pra sair e você vai querer ir, gastar dinheiro, não é?
- hm... é...
- É, ue! A vida é assim! [grande sabedoria... Nota do Editor] Você ainda tá na escola e...
- Não, eu to na faculdade já.
- Ah! É? Que coisa booaa! Cê estuda é no Uni, né?
- Não, na UFMG.
- Nóó! Que coisa boooaa! Cê faz é o que?
- Jornalismo!
- Tem uma menina que faz yoga comigo que faz é isso aí também. Ela é morena, alta, do tipo que você e o Mauro gostam.
- hm...

Avenida Amazonas.

- A casa do seu amigo deve estar chegando né.
- Eu desço depois da praça Raul Soares.
- Aaah, tem uma amiga minha que mora lá. Amiga minha assim... eu trabalho pra ela. Ela chama Márcia. Eu dormia na casa dela mas agora não to dormindo mais não. Eu, não, fiquei com medo. O namorado dela tem problema, ele é doente, sabe, menino? Diz que a família dele queria internar ele. Aí eu dormia lá mas um dia eu sonhei que ele tinha entrado no meu quarto e tinha passado a mão nas minhas partes íntimas [com essas palavras. Nota do Editor].
- hm... (querendo muito que aquela conversa terminasse ali: velocidade 5)
- Aí eu fiquei com medo, né, menino? A gente não sabe o que é que pode acontecer. E ela deixa a chave com ele, tenho medo, ele é doido...

Praça Raul Soares.

- É ali que ela mora, ó! Márcia que é o nome dela.
- hm...
- Eu to com saudades dela, eu falei com ela que eu posso até voltar a dormir lá, mas ela tem que deixar a chave comigo e ele não pode entrar. Ela que fez minha unha, ó!
- hm...
- Nó, menino...
- Tchau.
- Tchau, menino.

Antes de descer do ônibus sem olhar pra trás eu pude perceber o tom entristecido porém conformado em que ela proferiu essa última frase. Ela só precisava de alguém para dizer hms...

ps.: a situação teria sido bem mais legal se eu estivesse sentado no banco ouvindo toda essa "conversa", ou eu fosse a mulher que segurou as sacolas dela, ou até se eu fosse o Mauro ou a Márcia. Aí não teria o desconforto de ter que falar hms... Para todos os efeitos, enquanto ela falava eu montei uma historinha na minha cabeça. Se ela perguntasse, meu nome era Rodrigo, 22 anos, pagodeiro, micareteiro, etc... Algum assunto eu ia ter que render né... MInha vida tinha que ser mais legal do que a dela eheheh.

Dica de locadora: Short Cuts (Cenas da Vida) - Se você gosta de antologias (filmes em que várias histórias independentes são ligadas de maneiras surpreendentes, ou não) esse é altamente recomendado. O ano é 1993 e o diretor é Robert Altman. Muitas surpresas, muitas mesmo. Talvez você veja a versão picotada que passa de madrugada de vez em quando, mas a original tem 3 horas. As 8 ou 10 histórias são baseadas em contos de Raymond Carver, que inclusive eu recomendo também. Só fui reconhecer alguns contos muito tempo depois nesse filme. Um eu reconheci agora. Enfim, veja o filme.
Citação: "E foram", em Aqueles dois de Caio Fernando Abreu.
Trilha sonora: Agora ou jamais, Tigres de Bengala

terça-feira, julho 08, 2008

7.03 - Adaptation

[ Adaptation ]



Quando a gente é escritor, toda nota musical na partitura da vida vira assunto... "eu ainda vou escrever sobre isso..." ou "meu próximo post será sobre aquilo". Muitas vezes os assuntos passam pela gente, como as árvores ao lado da estrada quando se está de carro. Mas peraí... quem passa é o carro, quem passa somos nós. Deve ser por isso que os nossos textos ficam repetitivos depois de um certo tempo.
Sonhei com uma história e prometi transformá-la em novela. Esqueci a maior parte. Achei que pudesse escrever um texto sobre a minha mãe depois de pensar por alguns segundos que ela não estará aqui pra sempre. Faltou-me a coragem (pela idéia em si e pelo fato de que nenhum texto explicaria o que ela é pra mim). Rascunhei uma história sobre amizade, que no fim é exatamente igual à minha. E igual a todas as histórias que existem no mundo.
Pensei falar sobre o caminho de volta para a minha casa, ou sobre como eu nunca consigo manter o meu quarto organizado por muito tempo. Esbocei uma crítica sobre o filme, sobre aquele filme especial sobre um garoto e uma garota. Descobri que o filme mesmo é meio bobo. IMportante é o que ele me faz sentir. E sentimento não se escreve. Escreve-se sobre ele, mas não ele em si. E sobre é muito pouco.
Imaginei mil palavras se ordenando de forma a expressar todas as coisas que passam pela minha cabeça. Os segredos e confissões que estão guardados numa caixinha de sapatos em algum lugar. Mas essa é a plenitude e a beleza dos segredos. Manter-se obscuros é a sua humilde contribuição para o labirinto (ou seria quebra-cabeças) que é nossa vida.
Até mesmo sobre a vida eu quis escrever. Tentar através de palavras decifrá-la. Pretensiosamente desvendar passado e futuro. Mas a vida não é senão o que acontece do momento em que acordamos até o momento em que dormimos. E um pouco além.
Tentei me forçar a me lembrar de todos os sentimentos, todas as histórias de amor, para que eu pudesse escrever um dicionário. Quem leria? Não se aprende pelos outros. É preciso cada um quebrar a cara umas duzentas vezes na vida até encontrar a pessoa certa. E imagino que não deve ser mais fácil sentir a dor de ser a pessoa certa para alguém que não é a sua.
E os farelos no chão comprovam que falta alguma limpeza. Uma varrida no final do dia, talvez. Um dia escrevi sobre um desenho. Sobre um menino e seu amiguinho urso. Sobre como o ursinho descobria que o garoto estava crescendo e que logo não seria mais seu amiguinho. Talvez seu amigo para sempre. Mas não mais seu companheiro. Nesse dia eu percebi que nada é pra sempre, nem uma corrente de pensamentos de fim de tarde como essa.
Contar histórias é bom. Adaptá-las é quase sempre uma tarefa árdua que, se bem feita, já rende frutos. Afinal, histórias são pra ser contadas. Você não vive histórias. Quem vive histórias são personagens. Você (e infelizmente todos nós, e especialmente eu) vive é a vida.

(ai de quem disser que é bonita.)

Dica de locadora: Adaptation (Adaptação) - A metalinguagem vivida ao extremo... mesmo quando se refere a uma realidade que não é verdade. Roteiro de Charlie Kaufman e seu irmão Donald Kaufman (que não existe), interpretados por um Nicolas Cage inspirado, escrevendo sobre a sua própria história enquanto deveria escrever sobre Meryl Streep, que também tem sua própria história, em que surge Chris Cooper. No final, é tudo a vida...
Citação: Some forever, not for better... some have gone and some remain, In my life, by Lennon e McCartney
Trilha Sonora: Love grows (where my rosemary goes), by Freedy Johnston


segunda-feira, junho 30, 2008

7.02 - Se eu fosse você

[ Se eu fosse você ]



Existirmos: a que será que se destina?

"Mas o que é que vocês lêem?", perguntou o professor, enfatizando a questão anterior, quase retórica, sobre os hábitos de leituras dos alunos na aula de teoria do jornalismo. Somos quase jornalistas, pensei eu, deveríamos ler, assinar, criticar e escrever 20 horas por dia. E foi aí que começou um daqueles momentos de autopiedade que nos ocorrem às vezes. O que é que eu to fazendo aqui? Como é que eu posso me dizer um aspirante a jornalsita se eu só acompanho os acontecimentos do mundo depois das reverberações, depois das repercussões. Só descobri quem era Isabella quando o escândalo da vez já era outro. Não acompanhei a história dos militares gays na Época e nem o caso Ronaldinho na Veja. Nem mesmo o Super eu leio, a não ser pra saber o que é que vai acontecer na novela. "você é o que você lê", ouvi de alguém certa vez.

Talvez seja isso. Eu leio novelas, apesar de não acompanhar nenhuma. Chego na redação, no ambiente de trabalho, e abro o G1 pra ler a nova crítica do filme que estreou essa semana. No máximo leio alguma coisa sobre a última lista das 100 canções mais importantes na história da música brasileira. Leio romances às vezes, no intervalo entre um Charaudeau e um Mouillaud. É por isso que faço aulas de literatura... porque é lá que tenho Joyces, Woolfs e Hemingways no meu caminho. Mas ainda assim, isso não resume o que eu sou.

Eu sempre durmo mais cinco minutos e não chego atrasado. Deixo os trabalhos para a última hora, principalmente os mais difíceis. Tento não dormir em algumas aulas. O meu jeito de prestar atenção é desenhando alguma coisa numa folha em branco enquanto o professor fala. Não tenho má-vontade na hora do trabalho, mas saio da TV logo que o horário é cumprido. Volto pra casa ouvindo música no mp3. Gosto de LS Jack e sou recriminado por isso. Gasto dinheiro que não tenho comprando coisas essenciais na minha vida, como um McFlurry Suflair ou um Subway. Tenho auto-aulas de canto e faço shows dentro do meu quarto, mas não uso nenhuma técnica na hora de cantar Legião na roda de violão. Assisto seriados na tv e fico na internet até de madrugada sem motivos especiais. Varro o meu quarto quando a poeira começa a me incomodar, não guardo os cds de volta em suas caixas. Minha cama é sempre desarrumada e meu guarda-roupa organizado por cores. Como igual um peão de obra e ainda não consigo ganhar peso. Não freqüento academia por preguiça e por princípio. Escuto Miley Cyrus na mesma lista em que escuto Nana Caymmi. Tenho uma paixão platônica pela Elisha Cuthbert e pela Paris Hilton.

Já se foi a época em que eu assistia um filme e não descansava até escrever uma grande resenha sobre ele. Entrei na faculdade e vi que as resenhas não eram tão boas assim. Hoje, cinema só de vez em quando. Só vejo filmes que eu baixo, vez ou outra um clássico alugado da locadora. Continuo gostando de Beatles e The Beach Boys. Queimo incensos no quarto olhando o movimento pela minha janela do sétimo andar. Vejo a vida passar e retornar. Me deixo inspirar pela avenida e carros. Me deixo inspirar por pessoas, fatos e coisas. Me inspiro pelo episódio que acabei de ver de "Confissões de adolescente" ou pela música antiga da Patrícia Marx.

O que é que eu leio? Eu leio blogs. Blog do Noblat? Observatório de imprensa? Não. Eu leio as inquietações da minha irmã, leio os devaneios da minha outra irmã. Acompanho as críticas indignadas do Nuno. Eu leio o blog da Naty, o blog da Xanda. Leio as divertidas histórias mirabolantes do Rob Gordon. E leio textos teóricos porque sou obrigado. Já se foi a época em que eu pegava Platão pra ler só por diversão, só pra ver o que é que ele podia me falar a respeito de amor. Já se foi a época em que eu lia roteiros de cinema e tv só pra experimentar uma sensação criativa diferente de simplesmente assistir passivamente. Se o que eu leio me define então eu sou emoção, sou confiência, sou atenção, sou diversão, sou onirismo, sou niilismo.

O que é que eu leio e o que é que eu sou. Não é uma pergunta. Só um fragmento de frase que o word diz que está sintaticamente inadequada. Definição é limitação, velho clichê. Eu sou isso então. Sou só um clichê. Com um pouquinho de sonho misturado. E cobertura de chocolate. Eu sou um cartão de crédito sem limites. Sou uma tarde gris. Sou todo um monte de pequenas coisas. E tudo deve passar.

Dica de locadora: Se eu fosse você. Tony Ramos, Glória Pires, Daniel Filho e Globo Filmes. Tire suas próprias conclusões.
Citação: ver epígrafe. (Caetano Veloso, Cajuína)
Trilha Sonora: What am I to you?, by Norah Jones

segunda-feira, junho 02, 2008

7.01 - St. Elmo's Fire

[ St. Elmo's Fire ]



previously in Teatro de Vampiros...

São muitas as emoções que a gente sente por dia. São muitos os pensamentos, múltiplas esquinas de raciocínios, múltiplas encruzilhadas e turning points. São muitas as contas, são muitas as dívidas, muitos os pagamentos. São muitas as respostas que procuramos e também são muitos os sonhos que figuram na nossa cabeça, nem sempre trazendo sentido à nossa realidade quase sempre virtual. São muitas as obrigações. No meu caso, pautas, fitas, programas que caem, promessas que falem e sonhos que não se realizam. Mas no final das contas, se a gente não cair das janelas da vida, tudo continua. E por muito, muito, muito tempo.

Talvez todo o papo sobre a defenestração não faça muito sentido, porque no fim, tudo o que temos é o nosso próprio quadrado, e as histórias que fazemos acontecer dentro dele. Tudo se resume ao Happy Project. É claro, um tanto individualista pensar primeiro na nossa própria felicidade. Que me desculpe o mundo, mas é a única coisa que tem funcionado pra mim.

Não é só contornar assuntos acabados e amores frustrados, é bem mais do que isso. É poder ver a vida de um jeito diferente e daqui de cima a visão é bem melhor. As possibilidades são bem mais amplas. E tudo isso porque eu tenho 20 anos (embora muitos possam ter zombado dos momentos de reflexão que fazer aniversário naquele início de maio tenha me causado). Tudo porque eu resolvi viajar para ver o Oceano Atlântico num fim de semana qualquer. Tudo porque a vida simplesmente acontece e é o tempo que nos direciona onde ir. E acima de tudo, porque eles nunca vão compreender o que, para mim, é o Explosion. E é até melhor que não compreendam, porque pensar demais não é uma boa idéia. Eles nunca vão saber a dimensão desse grupo dentro da minha vida. Mais do que um roteiro de Malhação ou mesmo um seriado americano em reprise. Mais do que as letras das nossas canções. Mais do que copos vazios no fim da festa. Together forever everywhere.
A gente vai abrir a nossa própria empresa.

Dica de locadora: St. Elmo's Fire (O primeiro ano do resto de nossas vidas) - Sete amigos recém-formados se deparam com a amarga realidade do mundo real, tendo que conviver com a insegurança profissional e emocional nesta nova fase da vida. Este novo momento pode pôr em risco a amizade existente entre eles, a qual acreditavam que seria eterna.
Citação: "Cada um no seu quadrado", autor desconhecido
Trilha sonora: I've just seen a face, by The Beatles

quarta-feira, maio 21, 2008

Season 7 Promo

[ 10 minutes to the Season Premiere ]

No período que antecede a estréia de uma temporada de qualquer série de tv, surgem muitos rumores. Quem vai ficar? Quem vai deixar o elenco? Quem vai entrar? O que aconteceu desde a última cena da temporada anterior? Aqui não poderia ser diferente. Só posso prometer grandes surpresas, porque, acreditem, MUITA coisa aconteceu desde aquele dia de abril.

Afinal, agora eu sou um cara de 20 anos.

Something unpredictable...

Por enquanto, o template novo é esse daí, ainda vou ajustar umas coisas nessa imagem do título, mas a identidade visual do Teatro agora é essa. Pelo menos pelos próximos 20 episódios...

A emissora contratou novos personagens e alguns que eram protagonistas agora são participações mais do que especiais. Novas tramas, novas intrigas, novos amores, novas amizades...

but in the end it's right!

terça-feira, abril 22, 2008

6.21 - The End of the Affair

[ The end of the affair ]

ou season finale - último episódio da temporada



Irônico foi perceber que é a primeira vez que te olho nos olhos. Assim de um jeito direto, de uma distância pequena. A primeira para ser a última. A primeira para fazer morrer o que não tinha nascido. Desconcertante é notar que suas razões não são o suficiente para mim, apesar de eu compreender o seu sentimento.

Se eu estou pulando fora não é porque você pediu, saiba. Se eu desisto é por decisão minha. É minha escolha poupar você do constrangimento de buscar novas razões vazias para o que você só não sente e pronto.

Nossa história nõa era de um, nem de dois. Era três, quatro. Era cinco e você nem sabia. Era e nunca foi, porque se um dia ainda for, será só pra fazer definhar a alma do que a gente construiu junto. Amizade é uma colcha que vamos tecendo para nos proteger do frio no inverno de nossas vidas. E um sentimento não exclui o outro.

E não me fale sobre importância, não racionalize os sentimentos ou falta deles. Não pedi razões ou motivos (embora já tenha perdido noites pensando nisso), só uma decisão. Também não quero que me entenda mal, porque ainda haverão copos cheios, alegrias, festas e pautas. Ainda haverá contato. Mas no que eu estou me tornando, você só cabe de um jeito.

Não to dizendo que vai ser fácil. Mas se fosse mesmo tão forte, a fossa duraria mais do que dez minutos. Duraria mais do que o tempo da música triste no caminho habitual pra casa. O mesmo caminho que um dia dediquei a você. Mas agora só quero ouvir acordes maiores.

Engraçado é que eu já estive armado até os dentes e vestido com minha melhor armadura para enfrentar tempestades e guerras debaixo da sua janela só pra esperar o dia em que você fosse mudar de idéia.

A gente passa a vida inteira não fazendo o tipo de alguém. E a fantasia? Fantasia é para os fracos. Não que eu possa assumir uma vida sem sonhos. Mas a gente tem que ter em mente que alguns sonhos são malditos, outros não podem se realizar, e outros nem merecem ser sonhados. Não dá pra esperar muita coisa boa da vida, porque viver sem o risco de se decepcionar é bem melhor.

Quando a gente encontra alguém que tem tudo pra ser a pessoa certa, temos que ter certeza de que ela nos fará sofrer de um jeito especial só para provar que é a errada.

Ainda vai levar um tempo
pra fechar o que feriu por dentro
natural que seja assim
tanto pra você quanto pra mim

Ainda leva uma cara
pra gente poder dar risada
Assim caminha a humanidade
com passos de formiga e sem vontade

Não vou dizer que foi ruim
também não foi tão bom assim
Não imagine que te quero mal
Apenas não te quero mais

Não te quero mais

Não mais

Nunca mais.



EM BREVE A ESTRÉIA DA SÉTIMA TEMPORADA. EXPLOSION WAY OF LIFE. GOT TO BE BAD... (porque todo mundo já cansou do Mr. Nice Guy...)

domingo, abril 13, 2008

Porque hoje era para ser um dia lindo. Um domingo desses que não se esquece. E começou com o calor. Um calor forte, que fez meu corpo inteiro ficar dormente e aquela sensação que vem logo antes do desmaio permanecer por horas. Nem consegui almoçar, sem saber até o fim se era mesmo a temperatura, a roupa ou a memória.

Foi só colocar o fone de ouvido que passou. Por uma hora e meia eu vivi numa realidade alternativa, sonhando, imaginando e bem lá no fundo me arrependendo de ser fraco. Fraco por não ter conseguido cumprir a palavra de deixar pra trás batalhas perdidas. E essas dez milhões de coisas pairando na minha cabeça... aí apareceu o arco-íris.

Só pra eu voar pra mais longe e sonhar mais alto. E cair lá de cima quando eu descobri que meu dinheiro tinha sumido. O problema não era o dinheiro em si. Quando você perde dez reais é ruim. Quando você perde dez reais e tudo mais na sua vida está ruim, é a morte.

Chegar em casa foi uma vitória. Mas uma vitória pequena.

segunda-feira, março 31, 2008

6.20 - Summer of '42

[ Summer of '42 ]



Sabe aquela nostalgia de coisa que a gente não viveu? Aquela saudade de danças, bares e olhares. De décadas que vieram antes mesmo de eu nascer. Aquele sentimento de querer abraçar os amores perdidos, que se dissolveu nos caminhos do tempo. Como diriam os Beach Boys, acho que não fui mesmo feito pra estes tempos. Tenho saudades de carros e toca-fitas, de twists e colégios. Eu me apego aos anos que nunca me pertenceram só pra ter a chance de ouvir de novo as músicas que um dia não tocaram pra mim. Be my little baby.

Aqueles anos, que eu não vivi, são os meus anos incríveis. É pra lá que eu vou toda vez que a realidade e o presente vêm em um embrulho feio e sem enfeites. É pra lá que eu quero voltar, é lá que eu quero ter raio de sol num dia nublado, e quando estiver frio lá fora, eu vou querer o mês de maio.

Todos os trechos são, na verdade, a letra de uma música só, que estará para sempre no toca-fitas do carro do meu pai. Numa época em que as noites tinham drive-ins, milk-shakes, batatas fritas, e uma juventude transviada, rebeldes sem causa. Em anos sessenta de setenta amores, cinqüenta foguetes festejam oitenta alegrias.

Porque quando um homem ama uma mulher, ele não pode pensar em mais nada. Nem em reis e em Charles, nem rainhas e Carlies. Como é que eu posso me fascinar tanto com alguém que está sob a minha pele, com a cabeça no meu ombro que nunca foi.

What can make me feel this way?
My girl…

The Platters - Smoke gets in your eyes


They asked me how I knew
My true love was true,
I of course replied, something here inside
cannot be denied.

They said “some day you'll find,
All who love are blind”
When you heart's on fire, you must realize,
Smoke gets in your eyes.

So I chaffed them, and I gaily laughed,
To think they would doubt our love,
And yet today, my love has gone away,
I am without my love.

Now laughing friends deride
Tears I cannot hide,
So I smile and say, when a lovely flame dies,
Smoke gets in your eyes,

Smoke gets in your eyes

Dica de locadora: Summer of '42 (Houve uma vez um verão) - é um clássico e inesquecível filme. Baseado no livro e no roteiro de Herman Raucher, considerados por muitos como autobiográficos, o filme conta, com extrema sensibilidade, o despertar de um jovem de 15 anos para o amor, durante suas férias numa pequena ilha da Nova Inglaterra no verão de 1942.
Trilha sonora: Smoke gets in your eyes - The Platters

quarta-feira, março 19, 2008

6.19 - Sunset Boulevard

[ Sunset Boulevard ]


Durante todo o percurso, cada palavra ecoava e invadia minha mente, como se o fone de ouvido fosse, durante aquela tarde, parte do meu corpo. O que eu ouvia não era seqüência de notas, acordes e vozes, era algo mais intenso, mais completo, como se fosse possível ouvir ágape.
Foi então que eu olhei pra cima. O que eu enxergava não era o caminho usual de todos os dias do trabalho de volta pra casa, e sim o princípio do pôr do sol por entre as árvores. Os desenhos que fazem os galhos nunca foram tão bonitos quanto nessa época do ano, desfolhados mas muito vivos. Lembrei de vidas, vidas passadas? Tardes em clubes, esperando pela hora da aula, sentindo o cheiro de piscina enquanto brincava no balanço.

E tudo isso também era ela. Cada memória tornou-se um pouco do que são os seus cabelos, que eu nunca senti entre os meus dedos. A tarde era ela, porque ela era eu, pelo menos naquele instante. E eu aprendi num livro que um instante é o máximo que se pode esperar da perfeição. O sentimento ainda é criança e não aprendeu a falar.

Someday you will find me caught beneath the landslide
In a champagne supernova in the sky

Foi aí que eu comecei a cantar os versos alto. Mais alto do que eu geralmente canto, como se o mundo inteiro usasse o meu fone de ouvido. Os olhares de algumas pessoas passando por mim, espantadas, não me atingia. Porque era tudo tão harmonioso que eles pareciam entender minha necessidade de cantar, enquanto andava olhando para cima. A letra não importava mais. As entrelinhas transcenderam a profusão do momento.

O que as pessoas viam é o que eu não posso negar: sou mesmo estranho. Elas viam um garoto magro demais, com um corpo desajeitado e desproporcional, escondido sobre uma camisa grande e uma calça verde dois números acima, como eu sempre costumo usar. Nos pés, só o meu all-star todo preto, que ainda não combina com nenhum all-star azul. O que as pessoas viam é problema delas. Pra mim, era só céu e ela.

Quando a música mudou eu já tinha alcançado a avenida. Demorei mais do que o de costume para atravessar, como se estivesse adiando o momento de voltar para a vida real. Carros, bicicletas, beijos e casais, estudantes e revolucionários. Dentro de cada um uma história pra contar. Confesso que naquele instante, pouco me importava o resto do mundo. Só queria saber da minha própria história que ainda não está escrita.

O universo todo só existe para estar em volta dela. Será que ela sente quando ele a abraça? É tudo intenção. Porque eu também sou universo. E giro na órbita dela desde o primeiro dia. Com força instável e incontrolável, exaltada pelo álcool ou simplesmente pelo rastro do que ela é, que chega e fica.

If I could change the world, I would be the sunlight in your universe
And you would think my love is really something good
Baby, if I could change the world…

Opiniões são muitas. Como diria o Cazuza, me chamam de ladrão, de bicha, maconheiro. Às vezes algumas opiniões me atingem, mas na maioria do tempo, eu só quero continuar andando e cantando. Só quero continuar inventando meus amores e sendo acordado todos os dias pelo brilho da existência deles. Se acham grandes demais o meu nariz ou minha calça verde, que comecem a se acostumar. Se acham que eu sonho demais, me deixem atravessar a vida dormindo. Pelo menos no sonho ela está comigo.

What can I do? I fell like the color blue.


Dica de locadora: Sunset Boulevard (Crepúsculo dos deuses) - Um roteirista em fuga de credores termina por se esconder na casa de uma estrela do cinema mudo, que resolve contratá-lo para revisar o roteiro que marcará seu retorno às telas. O roteiro era insuportável, mas o pagamento era bom e ele não tinha o que fazer. No entanto, o que o destino lhe reservava não seria nada agradável.
Citação:
Trilha Sonora: I'll be there for you, by Bon Jovi

terça-feira, fevereiro 26, 2008

and the oscar doesn't go to...

Todas aquelas pessoas que só sabem reclamar que Hollywood é uma porcaria, que o Oscar é uma ode à mentira, que já não se faz mais bons filmes como antigamente, que Meryl Streep é deus e que Ellen Page não é ninguém. Só um aviso: Meryl Streep NEM SEMPRE foi Deus, ora bolas. Viram "Julia"?? Ela faz uma ponta das pontas, aparece 20 segundos em cena e sua performance nem é tão memorável. Só to tentando dizer: DÊEM UMA CHANCE AO CINEMA CONTEMPORÂNEO!

Eu também acho que Al Pacinos e De Niros de antigamente são melhores que Cruises e Afflecks de hoje. MAS EXISTEM Phillip Seymour Hoffmans e Forest Whitakers por aí. Nem tudo está perdido. Então, pare de reclamar. Ou então vá lá, pegue uma câmera, tenha uma idéia e FAÇA MELHOR.

Se o Oscar é um circo de horrores, NÃO ASSISTA. E depois, NÃO RECLAME.


Uma ex-stripper e ex-operadora de tele-sexo ganhou um prêmio de melhor roteiro. Quem vai me dizer que eu não posso também ganhar um Oscar?

terça-feira, fevereiro 19, 2008

6.18 - Now and Then

[ Now and Then ]




Esse post não foi planejado. Entretanto, o post anterior me permitiu uma viagem astral. Sabe quando as pessoas falam em viagem no tempo? Eu acho que é possível, real. Acabei de ter uma experiência do tipo.

No endereço que eu postei no último texto há o meu blog antigo. Eu tinha 17 anos. Parece que faz pouco tempo, afinal ainda nem completei 20. Mas pra mim são cerca de quatro eternidades, duas encarnações e vinte e seis eras geológicas. Exagero? Vá lá ler um texto pra ver... Naquela época, eu estava começando a conhecer profundamente a Nathália. Hoje, não imagino a minha vida sem ela. Naquela época, a Talita e o Horeya comentavam sempre. Hoje são lembranças no álbum de fotografia. Naquela época, todos nos reuníamos no bar da Michele pra celebrar as viagens astro-etílicas e ver o dia amanhecer tocando violão na casa do Rafaelzinho. Naquela época havia uma comunhão maior do que todas, mais inexplicável, forte e eterna. Era o coven. Mais do que apenas um grupo de estudos, era um grupo de irmãos.

Posts nostálgicos sobre o coven sempre tiveram espaço nos meus devaneios vampíricos por aqui. Mas esse é um pouco mais especial, creio eu. Não estou chorando, estou feliz, mais feliz impossível. É madrugada, eu trabalho amanhã, mas quem se importa? Hoje eu quero falar sobre o meu coven. E nem vou falar muita coisa não, porque tenho medo de que se eu colocar as lembranças todas pra fora por meio das letras, elas nunca mais voltarão.

Relendo o meu próprio blog, encontrei dois endereços. Dos tantos diários virtuais que acessávamos naquela época, parece que só dois ainda estão na ativa. E os donos que me perdôem por eu postá-los aqui, mas agora não tem mais jeito. Nesses dois blogs (Pedro e Filipe) eu vi a minha vida inteira passando diante dos meus olhos. Eu vi uma viagem especial pra Goiás, eu vi encontros 9 horas no cat, eu vi nuggets, coca-cola, filmes, segredos, surpresas, sabbats, vi encontros, desencontros, uma ou outra briga, eu vi dois caras perdidos no meio de uma confusão, vi festas... vi vinho, celebrações, fogueiras, sonhos, músicas. Vi tanta coisa...

2008 começou há uns 30 segundos, mas já estamos praticamente em março. Daqui a pouco faço 20 anos, daqui a pouco faço meu seminário de habilitação no Jornalismo. Faço estágio, ganho salário, cozinho, compro meu próprio celular e pago à vista. Todo mundo sabe disso. A festa de formatura do Filipe é nesse sábado. Ele passou por perdas, vitórias, conquistas, amores. Rodrigo acabou de se mudar pra rua de cima. Eu quase consigo ver a casa dele da minha janela. Essa semana vamos ver filmes indicados ao Oscar. Pedro esteve distante, mas nossas conversas francas no msn e nossos planos de como sobreviver num mundo solteiro estão de pé. De vez em quando ele vem aqui pra casa.

NADA é como antes. NADA MESMO. Da última vez que eu pensei nisso, Pedro, justo o caçula de nós quatro, o engraçado, o sem-noção, me falou uma simples frase que eu nunca mais vou esquecer. Ele disse que eu era o único que tava sofrendo por não ter mais o nosso grupo. Porque "todos mudaram, menos você, Otávio. Você continua...". Eu acho que agora, meses depois da nossa conversa, você já viu que eu mudei, né, Pedro. Também resolvi andar olhando pra frente e acho até que estou indo bem... Nada é como antes. Filipe e Rodrigo nem se falam mais. Falta assunto. Filipe e Pedro ainda são primos. Mas a cumplicidade não é mais a mesma. Rodrigo e Pedro se encontram vez ou outra e falam sobre nada. Mas o mais estranho de tudo isso é que os três ainda são meus amigos. Os melhores. Não os únicos melhores, como foram um dia. Mas não menos especiais.

Estou assistindo "Queridos amigos". Me deu uma vontade de reencontrar todo mundo. Uma nostalgia boa que faz ventar no coração. E todo mundo está voltando aos poucos, depois da reinauguração do bar da Michele. Ainda bem que ainda tenho o número de todo mundo na agenda.

Sabe no final de alguns filmes, em que vemos uma narração em off sobre o futuro dos personagens? É como eu sinto que está esse post. Mas não é final nenhum não. É o início. Quem sabe o reinício.

(é claro que não é o reinício da mesma história. uma história não tem dois inícios. mas nem sempre precisa ter um fim)




E foi naquele 28 de setembro de 2004...


Dica de locadora: Now and then (Agora e sempre) - Quatro amigas se reencontram depois de 25 anos para relembrar a doce e amarga passagem de cada uma delas para a adolescência, durante os anos 70. No presente, cada uma tem uma vida feita, mas ainda carrega consigo um pouco das outras três. Nada mais bonito do que o pôster, onde cada uma delas abraça sua versão de 12 anos.
Citação: eu tenho um doce, por Pedro.
Trilha sonora: Angra dos Reis, de Legião Urbana
Olha como é que as coisas são na vida da gente...

Consta no meu registro que eu já fiz 52% do curso. Consta lá que eu faço a habilitação número 1, que é jornalismo, com formação complementar livre.

Quem diria?

teatrodevampiros.weblogger.terra.com.br

aí estão os meus últimos posts da quarta temporada, quando eu ainda escrevia no weblogger. e é aí que está o relato escrito dos meus primeiros momentos na ufmg...

Nathália, apareça por lá depois e releia tudo aquilo. Sinta-se feliz (não só pelo fato de que sua qualidade textual é infinitamente superior à minha!!). E não deixe que esse seu início se perca no vento ou no tempo.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

6.17 - Jerry MaGuire

[ Jerry Maguire ]



ou Amores e traumas de infância

A copa do mundo de 1994 foi um marco na história. Tanto na história do futebol brasileiro e mundial quanto na minha própria história e de todos os outros garotos da minha "geração". Não foi, digamos, a minha "primeira" copa, mas é a primeira da qual eu me lembro. Os postes da rua onde eu morava com minha família na época se cobriram de verde e amarelo, por iniciativa das mulheres da vizinhança, em que se incluía a minha mãe. Tudo aquilo era novo e bonito demais pra mim, assim como o fascínio que me causava assistir a um jogo.

Nessa época, eu já torcia para o Cruzeiro, por influência do meu irmão, e já dominava os campos de futebol de botão. Foi nesses campos que aprendi a maioria das regras do esporte, e foi em volta deles também, que tive minha primeiras brigas com o meu irmão. Apesar de ser cruzeirense, tinha uma preferência por jogar com o time do flamengo ou o do vasco (porque o Cruzeiro era sempre do meu irmão mais velho). Mais emocionante do que aquele jogo de regras inventadas era todo o ritual que se desenrolava paralelamente. Toda a preparação, o time entrando em campo, os jogadores se aquecendo, a gente realmente fazia daquilo um teatro.

E em 1994 tudo era um pouco mais mágico. Não dá pra imaginar uma vida mais fácil do que quando se tem 6 anos. Naquela copa do mundo eu sabia toda a escalação da seleção brasileira, que incluía pela primeira vez o Ronaldo no alto dos seus 17 anos. Sabia tudo, do Taffarel ao Amarelinho (alguém aí lembra daquele bichinho redondo que aparecia durante as transmissões narradas por Sílvio Luís?). Nos meus cadernos do pré-escolar, as casinhas, árvores e sóis deram lugar a campos de futebol, onde o Brasil vencia a seleção de Camarões, em jogadas estratégicas indicadas passo a passo pelo lápis de cor. O Brasil venceu a copa. Pra mim, foi a primeira vez. É como se o Brasil sempre tivesse vencido.

Os anos passaram devagar. Ainda tive muito tempo pra jogo de botão - adquiri novos times e novas habilidades, que me trouxeram novas medalhas. Eu era um dos melhores da rua, perdendo só pro meu irmão e vez ou outra pra um dos amigos dele, que eram os "caras maiores". Nesse processo, mudei de cidade e de vida. Na escola, não gostava muito de jogar. Os segundos mais terríveis para um garoto são os momentos da escolha do time. E eu nem podia evitar ser um dos últimos a ser escolhido, porque eu não gostava mesmo de jogar. Mas na rua... Na rua em que eu morava eram mais de vinte crianças. E durante os quatro anos em que eu fui saindo da infância até chegar à pré-adolescência, o Futebol fazia parte do meu dia-a-dia. Aos poucos fui percebendo que eu não era lá muito bom com a bola nos pés, mas isso não me impediu de continuar vivendo o futebol a cada dia. Eram sessões de Fifa Soccer (eu e meu irmão sempre escolhíamos as maiores ligas - européias, é claro - e jogávamos por dias a fio), onde o meu Paris St. Germain brilhava, ou meu Werder Bremen era sempre coroado no final. Depois que eu "pendurei as chuteiras", veio meu período de "técnico" do time da rua, nos jogos contra os garotos da rua de cima. Também fui presidente do campinho que construímos num lote vago.E enquanto isso, no colégio, insistiam que eu ainda devia jogar. Era uma lástima. Nos dias em que jogávamos futebol, era sempre uma dor fingida, um médico marcado, uma desculpa qualquer. Só era menos pior nos dias em que jogávamos vôlei ou coisa do tipo. Até hoje eu não sei por que era tão diferente o meu desempenho e comportamento em relação ao futebol na minha rua e na minha escola...

Mas enfim, mudei de novo de cidade. Na escola nova, era futebol 360 dias por ano. Não tinha mais o meu campinho de serragem, nem o meu Fifa Soccer, nem o time da rua de cima pra desafiar. Só os egos dos garotos da minha sala. Abandonei de vez os campos e rompi relações com o futebol. Teria rompido também com o esporte se não fosse o time de voleibol, que me rendeu alguns jogos interessantes e algumas medalhas no currículo. Nessa época, o tempo começou a passar mais rápido e mais rápido eu me distanciei do futebol. O máximo que fazia era torcer pelo Brasil na copa de 2002, ao lado da minha nova turma, ou ao lado dos amigos da minha irmã. Mas não tinha mais o mesmo encanto dos enfeites pendurados no poste... "Brasil é penta... e daí?".
Pelos próximos anos, minha relação com o futebol só foi desaparecendo. E nessa época, também com qualquer outro esporte. Meu lugar era na frente de um computador ou vendo um filme, como todo bom nerd. E assim, perdi todas as outras edições do Fifa Soccer, nem ligava mais pra esses jogos. Preferia mil vezes zerar Tomb Raider do que uma partida de Winning Eleven.

Até 2006.

Foi quando o Barcelona venceu o Arsenal na final da Liga dos Campeões daquele ano. Os times eu já conhecia, pela escalação das edições anteriores do Fifa Soccer, pela passagem dos craques brasileiros por cada um deles, e pelas suas cores. Mas um jogo daqueles eu ainda não tinha visto. E daí por diante, vez ou outra, eu fui me interessando de novo (normal, época de copa), pelo futebol. Principalmente o futebol europeu. Essencialmente o futebol inglês. Não via sempre os jogos, mas acompanhava as notícias. Vi o Liverpool chegando até a final da temporada seguinte.

Da Liga dos Campeões passei para o Campeonato Inglês. Assumia o espírito de rivalidade presente nas torcidas inglesas por alguns minutos por rodada. Eram surtos que eu escondia das pessoas, até porque eu deveria ter continuado a ser o nerd que odeia futebol. Mas não dá pra odiar um jogo do Arsenal ou até mesmo do Chelsea. E simplesmente não dá pra ignorar o que fazem Cristiano Ronaldo, Rooney, Tevez. É mais do que eu posso compreender. É reatar um namoro de infância...

E ainda dizem que isso não tem nada a ver comigo.

Dica de locadora: Jerry Maguire (Jerry Maguire - A grande virada) - Tom Cruise é um agente esportivo que vê sua vida virar de cabeça pra baixo e é obrigado a empresariar um cara que não é muito bom no que faz, mas acha o oposto. Descubra o que é que esse filme tem a ver com o post.
Citação: Gosto a gente adquire novos, por Pedro.
Trilha Sonora: Fields of gold, by Sting