
Será que já foi tudo escrito? Tudo o que tinha de ser, sobre qualquer coisa? Por que é que eu não consigo mais terminar um texto pra postar aqui que não seja idêntico a qualquer um que eu já tenha postado? O calendário vai me dando algumas pistas do motivo.
É o motivo que eu respiro quando insisto em abrir os olhos de manhã, contrariando cada polegada cúbica de sono que ainda habita sobre minha cabeça. É o que me faz administrar e ponderar, e tornar o verbo "abdicar" cada vez mais cheio de sentido em minha consciência. É a consciência, afinal, do que pode ser e não ser, com clareza quase nítida das consequências de cada ato, embora a surpresa cotidiana ainda se faça açucarada em meu paladar.
É o meu motivo de acreditar ou duvidar, de sentir ou pensar, percebendo que há poucos limites entre os extremos, ou que simplesmente eram só pudores infantis. Não é hora pra ter menos indagações e mais surpresas, mas já é tempo de transformar os pontos de interrogação e as reticências deixadas pra trás ao longo da vida em pontos finais. Ou, ao menos, vírgulas (quisera exclamações!).
O motivo que me faz ter ideias concretas, tornando-as sonhos e, logo, planos. Descarto facilmente as utopias, mas mantenho esperanças. Expectativas em relação à vida. Por causa desse motivo, gosto mais quando a janela do quarto fica aberta enquanto a noite fria entra em flechas de ar. Por causa dele, encontro mais sinônimos, descubro mais ligações lógicas na poesia da humanidade.
Esse motivo me ensina que é difícil ser o melhor, mas que dá pra ser a gente mesmo, e se destacar dessa maneira. Ele me diz qual direção seguir, qual ônibus pegar pra voltar pra casa. Ele me ensina a sempre ter uma garrafinha d'água na mochila, e levar guarda-chuva mesmo com o estio mórbido anunciado. Ele me conta, de noite, qual é o momento certo, e me dá deixas.
O motivo me mostra pavios, mas esconde se eles vão incendiar velas ou explodir dinamites. São todas as escolhas que a gente faz. Trocando a festa pelos textos, trocando uma cidade por outra, trocando a calma certeira pela duvidosa agitação. O motivo que me impede de escrever é o mesmo que me mostrou, e continua insistindo a cada dia, que o importante não é o destino e sim a viagem - como se eu não soubesse.
Por causa desse motivo, eu durmo mais cedo quando sei que preciso. Ou mais tarde, quando acredito que posso. E por causa deles eu insisto em tomar decisões erradas, pelo prazer inconsciente da experiência. É o motivo pelo qual vou abandonando sem querer as emoções voláteis da adolescência. É o motivo pelo qual eu aumento de tamanho, sem mudar minha estatura. E que me faz sorrir ao olhar pela janela, ainda.
São as estações dando voltas. E eu sei que, no final, o outono sempre vai chegar. E trazer frios às noites. E folhas secas imaginárias para a gente pisar e fazer barulho. E não mudar apenas um dígito nos meus dados eletrônicos, mas trazer um pouquinho mais de juizo. É por causa dele que decidi parar de escrever neste blog.
"atenção, tudo é perigoso, tudo é divino, maravilhoso!"
Que eu possa ter a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que eu posso, e sabedoria para distinguir umas das outras.
to be continued...