sábado, maio 05, 2007

6.07 - Sense and Sensibility

[ Sense and Sensibility ]
ou "não espere que faça sentido, por favor"

Aquele "19" ali do lado do meu nome me assusta. Não me sinto 19. Nunca quis ter 19, nem pensava no que significaria o 19 pra mim. Agora talvez eu tenha percebido que o 19 é resultado de um processo que começou ainda pelos meados do 18. Olha quanta coisa aconteceu nesses últimos 4 meses. Hoje eu sou apresentador de um programa de TV.

Hoje eu sou tanta coisa (e a minha lista de "coisas a se fazer aos 18 anos" só deve ter uns dois itens riscados).

Acho que tudo isso faz parte do caminho que todos nós passamos, de Eduardo a Mônica. Até ontem eu tava no esquema escola, cinema, clube, televisão (substituindo o clube pela internet, que estaria nessa lista se o Renato Russo tivesse chegado a ver o fenômeno que é o Orkut e o MSN). E hoje eu gosto de Bandeira, de Bauhaus, Van Gogh, Mutantes, Caetano e Rimbaud. Ou tudo isso aí ao mesmo tempo. Ou nada disso aí em tempo nenhum. Ou fora do tempo, sei lá.

Definir-se é missão difícil, já que todo ser humano não passa de um bocado de momentos. Definir-se é limitar-se. Definir-se é não se permitir cometer contradições e "clicherizar". Quem aí não "clicheriza", hem? Definir-se é colocar pontos finais e pôr vírgulas entre sujeito e predicado.

19 anos e eu ainda sou o mesmo (será?). Cada dia que eu vejo um filme novo eu sinto que é o que eu quero fazer pro resto da vida. Quando o filme é bom, me instiga à genialidade. Quando o filme é ruim, eu penso que faria melhor. Meu sonho ainda é esse, apessar disso ser só sonho. Ainda gosto demais (e ainda mais) de música velha. Alguém falou que "o homem que não sabe o que aconteceu antes dele nascer será pra sempre uma criança". Ainda gosto de história e de filosofia. Ainda gosto de cantar alto, com um playback no meu fone de ouvido. Ainda quero ler tantos livros... tantos... Ainda quero devorar tanta arte até que eu tenha em mim tantos quantos foram os séculos iluminados.
(Ouvir música ainda me faz chorar, mais do que qualquer outra coisa no planeta.)

Falta tanto ainda. Falta carteira de motorista, falta o carro pra dirigir, falta o dinheiro pra pagar o filme alugado, falta coragem pra ir lá e dizer o que deve ser dito, falta um "você" pra completar o "nós". Falta sentido, hem.

Me recuso a ser definido. E ainda menos definitivo. Quero só ter o prazer de mudar o meu jeito de pensar e de continuar sendo contraditório. Quero só falar inglês quando me der vontade e quando me faltar erudição pra conhecer palavras no português que me satisfaçam. Quero ter 19 personalidades, passar 19 dias num navio e 19 noites na prisão.

Quero ainda encontrar um sentido para a vida antes que o texto acabe. E, por Deus do céu, encontrar um sentido pra esse texto antes que a vida acabe.

Acho que eu tenho 19 anos agora. Me dá mais 19 anos pra me acostumar, ok?

Hoje à noite eu só vou comer meu jantar, tentar cantar no tom e assistir um Kubrick. Amanhã eu penso nos 19.



Dica de locadora: Sense and Sensibility (Razão e Sensibilidade) - O romance de Jane Austen adaptado para o cinema traz Emma Thompson e Kate Winslet como duas adoráveis e diferentes irmãs e a sociedade inglesa do século 18. Primeiro a gente pensa que cada uma delas é um termo do título. Mas aí vemos que as duas são razão e sensibilidade, ao mesmo tempo. Só vendo...
Citação: "A vida que eu levo, nego pensa que é fácil" (Kelly Key)
Trilha Sonora: Mr. Brightside, by The Killers

6 comentários:

victor disse...

"De Eduardo a Mônica" foi simplesmente GENIAL. Nú.
Agora, esse trem de sentido da vida é estranho. Será que precisa de um sentido, mesmo? Os existencialistas diziam que não. Já que você gosta de filosofia, um dia leia "A idade da razão" (é um romance escrito por um filósofo, e tem muito de filme do Godard (pra ficar na porção "Mônica" das artes)- que certamente se inspirou nele) ou "O ser e o nada", ambos de Jean-Paul Sartre - um dos maiores seres humanos do século XX (e olha que o sujeito teve ao seu lado homens com Paul McArtney, Guimarães Rosa, Caetano Veloso, Adorno, Foucault e Michael Jackson). Talvez você descubra que a vida não precisa ter sentido (vai descobrir também que a liberdade condena o homem, mas isso é outra história).
"Definir-se é limitar-se". Lindo. Concordo plenamente. Mas às vezes é um exercício interessante, né? (Que eu costumo evitar, por meu turno).
Enfim. Eu gosto de Van Gogh e se alguém me perguntar por que eu não vou saber explicar. Preciso urgentemente estudar história da arte.
Mais urgente ainda é ver "Razão e sensibilidade".
Ontem eu vi "Hair". Um monumento de cinema. Entraria pr'uma lista bem reduzida dos meus filmes preferidos.
Uma coisa a se querer são vinte e nove amizades. Ou menos. Mas das grandes. Você tem a sorte de não precisar pedir isso.

Vilmar disse...

Eu simplesmente fico chocado com sua forma de escrever. Ao ver o tamanho do texto e a pilha de afazeres na minha mesa penso: "Será que leio?". Logo após começar torço para que não acabe nunca! É assim que sempre quis escrever, mas não consigo. Talvez eu ainda não tenha desenvolvido a habilidade de pôr literalmente a alma no papel, e tocar as almas de quem lê.

Se você está pensando nos seus 19, eu penso nos meus 20. Me vejo rodeado de pessoas em cargos importantes, fazendo coisas importantes. Me vejo com responsabilidades das quais nunca imaginei ter antes dos 30. Me vejo coordenando, dirigindo, treinando pessoas, sem saber se sou capaz disso. E me vejo sozinho, sempre sozinho.

E penso muito como você. Não gosto de me definir, e com certeza não sou definitivo. Acho que ninguém de Gêmeos pode ser.
Acho isso ótimo! Num momento da vida pensava que a inconstância era falta de personalidade. Hoje vejo que é o contrário: ela enriquece cada vez mais a nossa essência.
19... 20... São somente números.
Uma forma que fizemos para tentar definir o que não se define: o tempo.

Abraços!


P.S.: Não sabia que você era apresentador de TV! oO
Que máximo!!!
Qual é o programa? De que tipo ele é?
Fiquei curioso, e orgulhoso de você!
Até mais!

nathália disse...

what fits me more?
me manda pelo correio, caso não nos vejamos.

[sem tempo pra comentar teu post nesse momento, eu leio com a devida atenção a noite ;D ]

baisers, chérie!

Vilmar disse...

Tem sim, pois ainda não acabou.
Final feliz? Não sei ainda.
Esqueci de mencionar que são histórias baseadas em fatos reais e próximos. ;P

Ah, quando der você muda o nome da minha série ali? Já mudei para "O Baú dos Segredos Insecretos" faz um tempinho já...
;)

Abraços!

nathália disse...

frases todas comentadas no teu email.
fiz questão de comentar por e mail.
e de deixar isso no titulo (do e-mail, porra)... nem sei porque fiz isso \o/

padeira disse...

Não precisa ser definido, muito menos definitivo (adorei isso!) Não existe nada que não mude, mesmo as pedras com o tempo, mudam, como a Cecília dizia. E tudo o que é sólido se desmancha no ar. Exista e aproveite cada segundo de seus ciclos cronológicos. A gente só faz 19 anos uma vez por vida!