quarta-feira, novembro 12, 2008

7.07 - Running with scissors

[ Running with scissors ]


Ontem eu senti assim uma tristeza mesmo, sabe? Não daquelas tristezas concretas por causa de uma coisa específica, nada disso. É daquelas angústias que vêm sem avisar antes. O pior foi descobrir que talvez fosse só uma conclusão. Quando tristeza é conclusão, é porque a coisa tá feia. E lá, no supermercado, mil sacolas na mão, cesta pesada, esqueci o que estava procurando entre as pratelerias. Fazer compras tem sido um hábito solitário, talvez o mais solitário que realizei nos últimos anos. Eu simplesmente não consigo encontrar o que eu estava procurando, mas não por ser indeciso e sim pelo perfeito oposto: eu sei exatamente o que quero, sempre. Só que essa coisa nem sempre existe. Daí eu insisto em ficar insatisfeito procurando em lugares que eu sei que não vou encontrar.
E hoje, a agonia voltou. Enquanto apresentavam o trabalho lá na frente da sala, uma insuficiência tomou conta. Sempre detestei minha própria mediocridade, mas agora cansei dela. Cansei de simplesmente não ter o mesmo fascínio pelas coisas belas do que gente que eu conheço. Não consigo fazer por merecer, não consigo ser brilhante no que eu quero ser, só esporadicamente naquilo que me vem naturalmente. Em vez de ler o texto, eu sempre prefiro dormir. Por que é que eu não consigo?
Postergar tem sido minha palavra de ordem. Deixar sempr para a última hora, que nem sempre é suficiente. E então me deito sobre a mediocridade. E nem adianta nivelar por baixo. Sei, tem gente pior do que eu. Sei, tem gente melhor. E daí? Eu meio que ligo muito pouco para o mundo, tem sido assim ultimamente. O mundo é bobo, hipócrita, só umas 4 pessoas que eu conheço possuem opiniões que valem a pena ser ouvida. No máximo. Cansei de opiniões. Gente defendendo teses, que coisa mais estúpida. Odeio gente boa de serviço.
Eu descobri que o que eu mais odeio na vida é fila. E preencher formulários. E calor. Aff, calça jeans no calor. Mas ainda pior é opinião alheia. Me perguntaram outro dia por que é que eu to com tanta preguiça do mundo. Eu digo e repito: a culpa é do mundo mesmo. Não tem nada de errado comigo. Quer dizer, tem sim.
Dentro do provador da loja de roupas eu vi, pelo espelho, que minha cabeça tem um formato estranho. POr que será? Tipo, impossível simplesmente trocar de cabeça. Impossível até fazer plástica. Não que eu queira, mas é mesmo estranha. Uma coisa não parece combinar com a outra. E nada faz sentido em conjunto. Eu só consigo fazer sentido olhando de dentro, daqui mesmo de onde eu olho. Por isso que eu queria ser um eremita. Eu queria me bastar. Ou então que as pessoas fossem cegas.

E as risadas esparsas do dia a dia são só pra não viver em dor.
Queria é fazer um filme. Acho que vou começar um roteiro. OU então ler O apanhador no campo de centeio de novo.




cansado de padrões.

10 comentários:

RU. Ruleandson do Carmo disse...

Nossa, o seu texto que eu mais gostei até hoje! Lindo esse trecho "eu sei exatamente o que quero, sempre. Só que essa coisa nem sempre existe". É triste isso, se fizer o roteiro com frases como essa eu corto os pulsos no cinema hahaha abraço!

sblogonoff café disse...

Uai, uai, Márcia...

Eu não vou escrever nada para mudar o que sente.
Porque não vai mudar.

Mas é sério que odeia gente com opinião, tipo aquela música que a Adriana Calcanhoto canta: eu gosto dos que têm fome....

Welker disse...

Ah, não se preocupe quanto ao formato de sua cabeça... antes ela ser grande ou pequena demais e você usá-la direitinho do que ela ser perfeita e não servir pra nada... ok, talvez tenha sido um clichê dizer isso, mas enfim...

Welker disse...

Ah, não se preocupe quanto ao formato de sua cabeça... antes ela ser grande ou pequena demais e você usá-la direitinho do que ela ser perfeita e não servir pra nada... ok, talvez tenha sido um clichê dizer isso, mas enfim...

Gabriel disse...

Grande Otávio
Delirei quando vi q vc ganhou o concurso de poesias lá no champ vinyl. Não conhecia seu blog, mas agora vai ser leitura obrigatória.
abraço

Naty disse...

Não sei o que dizer pra vc agora, pq vc sabe que eu sinto essas mesmas coisas, às vezes. E sabe o que é pior? é que as coisas fazem sentido. Tudo faz perfeito sentido dentro do mundo e isso me irrita profundamente. Opiniões são estúpidas, para todas as coisas existe um formulário e você não pode se divertir sem uma fila. Deixei de descer no escorregador da Bienal em SP por que tinha 2 filas enormes.
Queria dizer alguma coisa pra te animar, mas não sei animar pessoas sem usar frases prontas e fingir otimismo. =/

Nuno disse...

eu voto o roteiro! mas enfim...é só uma opinião.

Kel Sodre disse...

"Mas ainda pior é opinião alheia" E agora? Comento ou não comento???

Kel Sodre disse...

Ah, Otávio, pholhas, vou comentar: sinto te desapontar, mas você é bom de serviço. Pelo menos, nos trabalhos que fizemos juntos, sempre foi.

Xanda disse...

O que eu mais quis na vida...escrever um roteiro..mas sabe de uma coisa acho que a gente exagera e protela demais...outro dia tava pensando no momento ideal de fazer isso quando ando pelo rua, vagarosamente quase sem rumo. O Bergala disse que o Godard não conseguia escrever um roteiro sem antes ver o ambiente e sentí-lo. A gente sente as coisas em excesso. Drama por drma poderíamos usar a nosso favor..que vc acha?