segunda-feira, dezembro 01, 2008

7.09 - Nuovo Cinema Paradiso

[ Nuovo Cinema Paradiso ]


Porque minha história com o cinema começou já torta. Não que eu considere, assim como milhares de outros podem chegar a dizer, menos nobre a escola de onde eu vim. Mas é que, naquela época, em que o videocassete era a lei, e as milhares de fitas de vídeo do meu pai enfeitavam as prateleiras do quarto, o cinema pra mim era Hollywood. Toda a minha formação original nessa área veio dos clássicos, veio da assinatura da revista Set que meu pai fazia. Eu gostava de ler e reler mil vezes os volumes daquela pilha gigantesca de astros e estrelas sobre a calçada da fama. Fazia filmes com atores reais da minha própria cabeça. Kubrickando sem querer...

Foi em Hollywood que aprendi a mexer mentalmente numa câmera, procurando com os movimentos e closes, o melhor ângulo. A estética, nessas horas, é o principal. O brilho, as luzes ofuscantes daquele universo paralelo, tão longínquo quanto qualquer sonho, para um garoto de 8 anos. Porque minha história com o cinema não começou de um jeito marcante, não houve aquele filme que me fez querer olhar para o alto e descobrir que, um dia, era aquilo que eu ia estudar na faculdade, aquilo o que eu ia querer fazer, na prática, do meu ganha-pão. De cidade pequena, me restava uma locadora limitada, da qual vi todos os filmes que me eram possíveis pela minha faixa etária. Colecionei pôsteres e acompanhei uma galera radical aprontando as maiores confusões na Sessão da Tarde. E vou negar que isso fez parte da minha formação cinematográfica? De Macaulay Culkin a Tatum O'Neill... Fui, pela primeira, vez ao cinema assistir Pânico 2. Semanas depois, Titanic. E não me arrependo. Teria sido melhor começar com Ladrões de bicicleta? Ou, de uma maneira menos ambiciosa, Felicidade não se compra?

Conheci Grace Kelly na capa de uma revista, Orson Welles nas páginas de outra, ao lado de Demi Moore, Tom Hanks, Alicia Silverstone. Porque é assim que tem que ser. Comerical? Se chegassem a pensar que é assim que eu vendo meu intelecto, assim que desperdiço os meus dias, assistindo reproduções de clichês, meras produções que devem sua existência a um outro cinema, este mais rico, denso, eu diria que é bem assim que deve ser. Foram as luzes de Hollywood que me fizeram despertar. Não apenas uma, mas várias comédias românticas com Meg Ryan que me chamaram atenção para um jeito diferente de produzir a realidade.

Porque foi tarde demais que eu conheci Antonioni. Bergman, Fellini, Visconti, de Sica, Ozu eram apenas nomes. Hoje reconheço o brilhantismo das obras modernas, que transpõem as barreiras do clichê norte-americano. Mas não por isso devo abandonar a terra que me acolheu, em sonhos. Não por isso fecho os olhos ao que Hollywood me proporciona, a cada premiére. Porque o cinema é um só. E (me) é possível amar tanto Monica Vitti quanto Reese Witherspoon. Porque Katherine Hepburn representada por Cate Blanchett no blockbuster sobre um sonhador, como eu, é a síntese do que o cinema significa pra mim.

Tantas são as dimensões que o cinema possui, que resumi-lo a fez Godard é tão injusto quanto acreditar que Spielberg seja o maior diretor de todos os tempos. Um nos dá o desprezo, o outro, dinossauros... Porque sonhos, e a vida, no geral, é feita do que está por dentro e do que está por fora. Não é desse cinema exterior que ganha sentidos interiores que viveu Hitchcock?

Minha história com o cinema é torta, mas não por culpa das comédias e filmes adolescentes que vez ou outra me ocupo de ver - e que me causam tanto fascínio quanto preto-e-brancos. É torta por eu ter acreditado, por anos, que era errado adorar Hollywood. De lá vieram tantas pérolas quanto aquelas das ostras neo-realistas, surrealistas, formalistas, fascistas ou comunistas. É dessa comunhão, do homem com a câmera que nos faz unir Sergio Leone e Guillermo del Toro num mesmo patamar. Porque a genialidade é multifacetada. E quem quer que desconheça, ou ignore, ou mesmo negue essa realidade, não entende o cinema. E terá sido em vão cada segundo dividido em 24. Terão sido vãs as percepções diegéticas de Eisenstein, que se descobre tarde, após anos de John Hughes. Tornatore me ensinou mais do que amar o cinema, no sentido físico da palavra, mas também me ensinou a amar Monica Bellucci.

Graças a Hollywood, cresci com Tom Hanks, toquei teclado na loja de brinquedos, corri contra o tempo com Sandra Bullock, viajei ao passado com Michael J. Fox, matei aula com Matthew Broderick, enfrentei duendes malignos com Jennifer Connelly, cresci cedo demais com Robin Williams... E também desvendei fórmulas matemáticas com Matt Damon, psicanalisei uma fila de cinema com Woody Allen, enumerei meus dramas amorosos com John Cusack, encarei lutas com Brad Pitt, me apaixonei por Mrs. Robinson com Dustin Hoffman, tive crises de criatividade com Nicolas Cage, fiz brigadeiro com Liv Tyler, torci parra que a assassina fosse interrogada de novo com Sharon Stone, me casei com Julia Roberts. Respirei Tarantino, ri com Diablo Cody, me fascinei com o mundo de Coppola, mordi o pescoço de Kirsten Dunst, cresci com Christina Ricci, morri na tragédia com Leonardo di Caprio e Claire Danes.

Continuo a minha dieta. De macarronis a Morricones. Continuo devorando com o mesmo gosto Fritz Lang e Christopher Nolan. Continuo cinéfilo e cinófilo - e darei ao meu cachorro o nome de Godard. Não há maneira vil de se fazer cinema. Todo close, todo plano, toda cena é nobre. Em cada Bette Davis há boas intenções, em cada Reese Witherspoon há arte. Há beleza no que faz o cineasta independente, com apenas algumas idéias leves e joviais na cabeça. Há razão tanto em Cary Grant quanto em Keany Reeves. Não há como negar que, entre fotografias, trilhas, espaços, lugares, sentidos, não exista cinema. Porque não há cinema ruim. Há apenas filmes ruins.

E, aos meus filhos, Capras, Disneys, Lucas e Spielbergs. Para que a infância de todos tenha tantos sonhos quanto foram os meus.

Dica de locadora: Nuovo Cinema Paradiso (Cinema Paradiso).
Trilha sonora: Por que você faz cinema? (Adriana Calcanhotto)
Citação: y tu mamá también.

4 comentários:

Naty disse...

... e viva os blockbusters! \o/

sblogonoff café disse...

Você ua ótima argumentação dissertativa. Fiz a mesma escola que você, mas não continuei não!
Talvez seja por isso que não consiga adentrar tanto assim a alma dos filmes. Bom, Hollywood se assemelha à rede Globo. Sabe, é um canal que passa Faustão, Xuxa, novelas e Trapalhões, mas é o mesmo canal que exibiu Hoje é dia de Maria, Queridos Amigos, e fora o Casseta e PLaneta que tá péssimo e o Zorra, tem bons programas de humor. (Só agora!).
Aqui quem fala é uma irmã que já não é tão radical e gosta do cinema além do europeu. O cinema nacional tá muuuuito bacana, hollywood produziu excelentes filmes e deixe que digam, que pensem, que falem...
ALgumas pessoas têm arrogantes crises de pseudocultura, mas aprendi que a intolerância não tem nada de sábia!!
Sabes tú que o sabiá sabia assobiá?!!!


COncordo quando diz que não tem cinema ruim. Tem filme ruim.

sblogonoff café disse...

Você ua ótima argumentação dissertativa. Fiz a mesma escola que você, mas não continuei não!
Talvez seja por isso que não consiga adentrar tanto assim a alma dos filmes. Bom, Hollywood se assemelha à rede Globo. Sabe, é um canal que passa Faustão, Xuxa, novelas e Trapalhões, mas é o mesmo canal que exibiu Hoje é dia de Maria, Queridos Amigos, e fora o Casseta e PLaneta que tá péssimo e o Zorra, tem bons programas de humor. (Só agora!).
Aqui quem fala é uma irmã que já não é tão radical e gosta do cinema além do europeu. O cinema nacional tá muuuuito bacana, hollywood produziu excelentes filmes e deixe que digam, que pensem, que falem...
ALgumas pessoas têm arrogantes crises de pseudocultura, mas aprendi que a intolerância não tem nada de sábia!!
Sabes tú que o sabiá sabia assobiá?!!!


COncordo quando diz que não tem cinema ruim. Tem filme ruim.

Xanda disse...

Antes que o mundo te descubra eu quero ser sua parceira...pq eu não tive escola. Dependeu de mim olhar para além da narrativa e ver que havia por detrás um mundo que queria mais do que tudo. Um mundo que compensa a vida do dia-a-dia.